sábado, 14 de fevereiro de 2009

Apagar, esclarecer, clarear.

Meus professores me diziam há bem pouco tempo atrás que idéia tinha acento agudo, que usava-se acento diferencial para distinguir as palavras, e que lingüiça e conseqüência sempre levavam trema. Todavia, sempre é uma definição vasta demais e além de tudo, perigosa. “A casa caiu”. O conceito que estava definido para os estudantes, para os professores, gramáticos, publicitários, advogados e falantes da língua se retirou de cena sem nem sequer receber aplausos ou vaias. Só se foi. O trema vai deixando aos poucos nossas gramáticas, os hífens mudam de lugar, somem e desaparecem nas palavras nos dicionários. Não, não é o fim do mundo, é a Reforma.


Mudar padrões, conceitos e temas que já têm espaço garantido é um desafio. Desafio de aceitação, desafio de adaptação, de coerência e de padronização. Para um jovem de hoje, pensar que o bê-á-bá que seus filhos aprenderão será diferente do seu, assusta. Para qualquer um de nós, pensar que a nossa antiga infra-estrutura vai virar a enorme infraestrutura com todas as letras juntas, assusta. E que qualquer feito heróico, será pura e simplesmente heroico, assusta também. O começo é descoberta, espanto, pasmo. O que era de nosso domínio, sai da nossa “zona de conforto” e começa a fugir de nossas mãos.

É difícil pensar que uniformizar a língua talvez seja cortar suas asas. É tão bonito ver as diferenças, as singularidades e até aquele jeito “abrasileirado” de falar, que, depois de um tempo, deixou de ser incorreto para virar informal, idiossincrático. A cristalização é que não é bonita. Ela é densa, pesada demais. E essa linguagem densa, sobrecarregada, linguagem de terno e gravata, enfadonha, nada tem a ver com o nosso espírito brasileiro que é leve, expansivo e tem aquele tempero que é diferente em cada um de nós.

E se um dia ninguém lembrar do trema? Verdade é que muitas pessoas não sabiam utiliza-lo, mas ele estava lá. Será que, quando finalmente formos obrigados a fazer uso da língua reformada, não sentiremos um vazio nas gramáticas e lembramos com saudade dos “dois pinguinhos em cima do u”? Será que a feiúra vai ficar mais feia sem acento, ou a pêra vai ser menos suculenta sem o gracioso “chapeuzinho” acima do e?

É fato que terão que se adaptar os livros, os anúncios, os romances, as bulas de remédio, os roteiros de viagem, as provas, os encartes de supermercado... Mas, e nós? Será que conseguiremos apagar e depois preencher as lacunas da nossa memória?

Mudar é preciso, mas ninguém nunca disse que era fácil.






Ponto final.
(Pelo menos ele não foi reformado)

Um comentário:

lety disse...

Você é surpreendente! Te Amo! ^^