terça-feira, 5 de outubro de 2010

Se ele não tivesse falado com Maria Helena...

Talvez o céu não tivesse clareado
Talvez a chuva não tivesse estiado
Talvez o samba não fosse tão feliz
Talvez a prosa não fosse de alegria

Talvez Helena não sorrisse hoje em dia
Talvez o povo não andasse tão contente
Talvez a nuvem não pairasse mais tão leve
Talvez meu canto fosse hoje mais breve

Se ele não tivesse falado com Maria Helena
Naquele dia, naquela hora
Talvez a chuva caísse mais forte
Talvez o mundo ficasse sem sorte
E não houvesse mais borboletas.

Talvez ele tropeçasse num bueiro
Naquela noite, naquele dia
Talvez ele não andasse tão faceiro
Talvez os pássaros parassem de cantar

Talvez nada voltasse a ser igual
E todo o mundo entrasse em guerra
Talvez aquela rua, aquela casinha amarela
Ficasse sem cor, sem jardim, sem quintal.

Talvez aquela rua
A casa amarela
Talvez o poste
O bueiro
O céu
Talvez a nuvem
Talvez a guerra
Talvez a chuva
Talvez Helena
Talvez.

Só sei que
Se ele não tivesse falado com Maria Helena
Naquela noite
Naquele dia, naquela hora
Ela não teria sorrido
E dito assim, serena
“Eu te perdôo”


Luisa Iva
em 14/9/2010



Dia sete desse mês o nosso blog completa dois lindos aninhos!
Parabéns!
E obrigada aos poucos e bons leitores que fazem daqui um cantinho feliz.

Ponto final.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ciúmes – a saga de uma namorada neurótica.

Pára de olhar pra ela!
Eu sei que você está olhando.
( Bochechas coradas, voz aguda)

Amorzinho, não estou olhando pra nada!

Para de ser dissimulado, homem!
Tira o olho dela
Tira o olho dela!
(gritos fortes, rosto parcialmente vermelho)

Eu juro que não estou olhando ninguém!

Mas você ainda insiste?!
Eu vi, eu percebi
Que você não tira o olho de lá!
(vermelhidão total, ira)

Você está louca?
Não vejo ninguém...
Quem você está vendo?

Tira o olho dela, vai ser melhor pra você
Finge que não vê, né?
Não adianta, eu sei.
(cinismo, ironia e vontade de esganar o sujeito)

Meu Deus!
Você enlouqueceu!
Me diz o que é que houve!

Tira o olho desta maldita bola!
Eu aqui do seu lado
E você não tira o olho dessa televisão!
Vou desligar a TV.
Estou com ciúmes do futebol...
(Biquinho)


Luisa Iva
em 31/08/2010



Ainda bem que eu gosto de futebol.

Ponto final.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Simpatia

Simpatia,
Nem sei bem o que vejo em você...
Sorri pra mim
Com essa luz de dentro
Chave mágica, lampião.

Sabe, Simpatia
As coisas são complicadas demais.
Eu sempre tive as palavras certas,
Agora elas estão em greve.

Acho que é você
Que me faz perder o tom,
Sair da linha
Do bem-feito, do certo demais.

Obrigada, Simpatia.
Às vezes a gente precisa
Se desconcertar.

Você me desconcerta.

Simpatia,
Nem sei bem o que vejo em você...


Luisa Iva
em 21/07/2010


Ponto final.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Instantâneo

Em três minutos
Vou te dizer o que venho pensando
Há tempos, meu bem.

Tic Tac

O mundo dá voltas
Mas hoje ele gira mais rápido
É fast.
Very fast.

Tic Tac

Eu venho pensando em nós
Admito.
E não foi rápido pensar no que dizer.
Mas digo.

Tic Tac.

Tá acabando o tempo
Hoje em dia o relógio manda.
Vou falar rapidinho
Pra não incomodar.

É fast.

Tic Tac.

Eu te amo.
É só.
É fast.

Tic Tac.

O miojo cozinhou
Vou desligar.
Até mais, meu bem.

Tic Tac.

Tu Tu Tu...



Luisa Iva

em 21/07/2010


Ponto final.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Lacunas

Não sei bem de ti, meu amor,
Nem de mim sei bem.
Sei tão pouco do mundo
Que dele nem sei se faço parte.
E do mundo alheio,
Alheio a ti estou.

Sei tão pouco de ti
Que em ti não sou.
Sei tão pouco das cores
Que me sinto cinza.
Da luz também não sei, amor
E te amo no escuro,
Assim, sem poder mostrar-me.

Sei tão pouco da vida
Que nem sei se vivi dela o bastante
Ou se ainda me resta algum fio da linha do tempo.
Não sei se faço parte
Ou se sou inteiro.
Não aprendi a contar histórias, nem estrelas.

Só sei que sou velho.
Isso as rugas me contaram.


Luisa Iva
em 24/06/2010



Reflitam.

E...
ponto final.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sábado Azul

Bem de manhãzinha, num sábado azul, eles se encontraram. Sorriram alegres por verem que realmente estavam ali juntos, embora já tivessem se visto no dia anterior. Bonito isso dessa gente ficar contente só de se ver e não enjoar de se encontrar toda hora. A presença, quando se basta, se torna o maior refúgio do outro, o maior abrigo; a companhia, a maior diversão, o carrossel mais colorido, a experiência mais viva.

As mãos se tocaram para depois se aninharem num aperto delicado. Entrelaçaram-se, simultaneamente. Mãos dadas, almas coladinhas, sentimento comum. As unhas dela arranharam de leve a palma da mão do rapaz. Ele tomou-lhe a mãozinha delicada, de unhas pintadas na cor da maçã do amor, e deu uma mordidinha nas costas. Mordida que acaricia, arranhão que afaga.

Ela encostou sua cabeça no peito dele por um segundo e, levantando-a, sorriu. Ela sentia-se protegida quando estava com ele, ele gostava de protegê-la. Novamente, a cabecinha procurou o corpo do rapaz, pedindo um cafuné e, para atender ao pedido, ele acariciou-lhe os cabelos com ternura. O cheiro dos cabelos da moça despertava tantas lembranças boas quanto o perfume doce que ela usava, duas espirradinhas de cada lado – maravilhoso!

Continuaram a andar e as pessoas que passavam pela rua olhavam admiradas o jovem casal. Quanta felicidade. Eles eram felizes sim, eles tinham aprendido a ser felizes, e andavam com a leveza de quem ama. Sem pressa, sem relógios, sem preocupação. O que lhes regia o ritmo dos passos era o prazer de estarem juntos, de terem um ao outro e, por isso, desejavam que aquela caminhada se prolongasse mais a cada minuto.

Moviam-se compassados, o coração também batia no mesmo ritmo. Ele era dela, ela era dele, e não se importavam de pertencer um ao outro. Triste é quando a gente quer ser só da gente mesmo, sem se dividir com ninguém, sem ter ninguém pra se compartilhar com a gente. Eles não tinham disso, se orgulhavam em dizer que, de tão juntos, já haviam atrelado seus quereres, deixando em cada um, um pedacinho do outro.

Atravessaram a rua no sábado azul. E seguiram. Ela queria tomar sorvete, ele queria o que ela quisesse. Então, era o sorvete mesmo. Sorvete de sábado azul.



Luisa Iva
em 13/05/2010


Aproveitando pra desejar os parabéns pra Lety, a menina do coração mais meigo, e um beijo para aquele que deixa meus sábados, meus domingos e minha semana toda mais azul.

Ponto final.

terça-feira, 30 de março de 2010

Brevidades sobre o amor maior

O meu amor é assim, sereno. Pra ele não tem chuva, nem sol, nem frio. Só festa, tempo morno, confete, bis.

Meu amor é tão vívido, singelo amor. De tão simples é raro. Jóia, coroa, baú do tesouro, fim do arco-íris, bilhete premiado. Raro amor que não ostenta, não vulgariza, não empina o nariz. Amor de pureza, inocente; só ama, não fere.
Amor que faz brilharem os olhos, amor que faz a voz cantar. Arrepio, sorriso, suspiro, amor, amor maior. Não suporta saudade, não mede esforços pra se demonstrar. Sobe no palco, no muro, nas Muralhas da China, e grita – eu amo. O grito do meu amor é sussuro doce.

Amor tão grande aos meus olhos, mas que, de tão singelo, se abriga em meu peito. Não se expande pra não incomodar. O grande amor é o que cabe nos mais breves espaços. Amor de fechadura, do sorriso envergonhado, do beijo roubado, da mão estendida... De centésimos, milésimos grandiosos. Amor que não usa fita métrica, relógio, cronômetro, balança, catraca. Sentimento que se adapta, que cabe em qualquer coração de esperança.

Amor que é amor cabe nos mais breves instantes. Ama, não restringe; agracia, não atormenta; não mede, congela ou enjaula, é multiforme, multicolorido. Amor que é de todos, meu também. O meu amor é aquele que envolve. Basta abrir uma brecha, um espaço, uma fresta que ele vem entrando, humilde.

O meu amor, que trago no peito, é contente em exercer o seu trabalho: fazer amar. E amo.


Luisa Iva Maia Forte
em 22/03/2010



Sem enfeitar o discurso, porque o amor é simples, mando um beijo especial pro meu mais singelo amor.

Ponto final.